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A História Contada por Aqueles que Desbravaram Santa Helena

A História Contada por Aqueles que Desbravaram Santa Helena

 

Da Redação/RGL

 

Observação:

O texto abaixo foi extraído e transcrito na íntegra pelo Professor João Rosa Correia do outrora e extinto Jornal Costa Oeste de Santa Helena Paraná, Edição Especial (25 de Maio de 2000 – p. 8, 9) em homenagem aos Trinta e Três anos de Emancipação Política Administrativa do município. O interesse na transcrição e publicação nas redes sociais (mídias eletrônicas) das histórias de: Mário Noro/Alberta Noro; Calixto Prati/Irene Prati, contidas no referido Jornal tem como finalidade manter viva a memória histórica destes que fizeram parte dos primeiros colonizadores da região de Santa Helena Velha/Vila Celeste, extremo Oeste do Paraná.

Narrativa histórica de Mário Noro/Alberta Noro; Calixto Prati/Irene Prati.

A História Contada por Aqueles que Desbravaram Santa Helena

Os aspectos históricos sempre fascinaram o homem. Os “causos”, contados pelas pessoas mais idosas, até hoje reúnem famílias inteiras, onde os mais novos ouvem com atenção as histórias do passado. Por isso, nada melhor do que ouvir daqueles que aqui chegaram, bem antes de nós e foram os responsáveis diretos pela colonização.

O agricultor Mário Noro é um exemplo disso. Aos 73 anos de idade, é um dos mais antigos moradores do município de Santa Helena. Lúcido e em plena forma, tem disposição para narrar fatos interessantes. Como se fosse coincidência, também chegou a Santa Helena num mês de maio, mais precisamente no dia 17. Estamos no ano de 1930 e um dos navios argentinos que percorrem o Rio Paraná, acaba de atracar no Porto local. A bordo, está Mário Noro, então com três anos e alguns meses. Seu pai e sua mãe carregam consigo outras duas crianças, porém, Mário é o mais velho dos três. Uma irmã, a mais nova, tem apenas 40 dias de vida. Vindos de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, tiveram de alcançar a região de Posadas, ponto de embarque na Argentina. Foram vários dias de viagem, rio acima, até chegar ao Porto de Santa Helena.

            A vinda para a nova terra tinha motivo: em Farroupilha, a terra era muito “dobrada” e aqui, os preços eram muito convidativos. O avô de Mário, já em 1918, comprou na região onde hoje está a Vila Celeste, 230 alqueires de terra para repartir entre os 16 filhos. “Ele estava certo ao comprar a terra aqui”, explica o neto Mário. Porém, muitos problemas quase complicaram a vida dos Noros.

A companhia responsável pela colonização “faliu” e a família só não foi embora porque não tinham dinheiro para voltar.

            Dos 16 filhos do avô de Mário, apenas Luiz Noro, tio de Mário, que havia chegado já em 1921 acabou permanecendo. Outros vieram mais tarde, mas venderam suas partes e foram embora. “Os outros vieram depois, mas não foram morar em cima desta terra”, explica Mário Noro.

            Nesta época, a Companhia Espéria explorava a erva-mate e a madeira. A única estrada ligava o vilarejo, onde hoje está Santa Helena Velha, ao porto do Rio Paraná. Mário se recorda de alguns detalhes marcantes, como a falta de sal. “Tínhamos que comprar sal nos navios que atracavam, senão, faltava tempero nas panelas”, relembra.

Antes de virar um bem sucedido agricultor, Mário Noro teve comércio. Vendia de tudo. A bebida ficava estocada no porão da casa, para manter-se em boa temperatura. Em determinado momento trouxe um gerador de energia que “tocava” até uma fábrica de sorvete.

            Em 1958, casou-se com Alberta Tafarel, nascida em Santa Helena em 1934. “Meu pai chegou em Santa Helena no mesmo navio que o Amadeo Bortolini e o Ferri”, esclarece. O pai de Alberta tinha uma ferraria e toda a família trabalhava ajudando no sustento do lar. Ali, produziam enxadas, foice e martelo para os colonos e era comum trabalharem até altas horas da noite.

            Com o casamento, Alberta passou a auxiliar Mário Noro no armazém. Ali, o casal começou uma bem sucedida história que hoje relembram com brilho nos olhos. Os detalhes não fogem à mente: “Não tinha nada aqui, a não ser um baile a cada seis meses”, comenta Alberta. A missa era realizada no porto da Espéria, a companhia argentina que explorava o local, porém nem sempre havia padres por lá. No início, chegavam e iam embora com os navios.

            Depois, com a estrada ligando o lugar até Foz do Iguaçu, vinham a cavalo. Um fato interessante, ligado à religião diz respeito à própria companhia Espéria. Alberta lembra que não quiseram doar a casa para um padre ficar. Ele teria ficado tão irado que maldiçoou o lugar. Destino ou não, logo depois o lugar cairia por terra.

            A história do casal Alberta e Mário Noro bem que merece um livro, tal riqueza de detalhes e a profundidade dos depoimentos.

            Mário Noro relembra com carinho daquele tempo e ao ser indagado sobre tantas dificuldades enfrentadas, dispara: “o tempo cura tudo”. Sobre o estágio atual do município, é enfático ao afirmar que Santa Helena teve muitos problemas políticos que atrapalharam o desenvolvimento. “Se o município fosse administrado como o é ultimamente, estaria muito melhor. Eu analiso isso, observei muito isso. Hoje, é só administrar de acordo, que vai tudo para frente”, encerra.

100 Km a pé

            Outro casal que é parte integrante da história de Santa Helena é Calixto e Irene Prati. Ambos vieram da região de Rio das Antas, no Rio Grande do Sul, mas em épocas diferentes. Se encontraram em Sant Helena e aqui se casaram.

            O pai de Calixto Prati comprou terras no novo eldorado ainda em 1921, mas somente dezenove anos depois a família se mudava. Calixto chegou em março de 1938, ainda solteiro, com 19 anos. Irene Regina Zanetti (nome de solteira) chegou em maio do mesmo ano. Vizinhos no estado gaúcho, as famílias acabaram seduzidas pelo bom preço das terras locais. Apesar de acreditar que teriam um futuro melhor pela frente, encontraram o novo espaço abandonado. A viagem relatada por Calixto mostra como eram grandes as dificuldades da época. “A família dela fez 24 dias de viagem” lembra. Cem quilômetros foram percorridos a pé, praticamente cruzando o estado de Santa Catarina, já que não havia estradas no local. Em Barracão, atravessaram para o lado argentino, onde alugaram um caminhão que os trouxe até Foz do Iguaçu. Ali, aguardaram por quatro dias a chagada de um navio, o cargueiro “Salto”, a vapor, com pás em vez de hélices. Para subir o Rio Paraná e chegar ao Porto de Santa Helena, demoraram quase o dia todo.

            A dificuldade de locomoção era tanta que só traziam os pertences menores. A falta de estradas e meios adequados de transporte trouxe um preço muito caro para a família Zanetti. O pai de Irene, um ano após chegar em Santa Helena, se viu às voltas com uma grave infecção em um dos pés. Sem meio de locomoção, teve de esperar o navio para ir até Foz do Iguaçu, onde havia alguns médicos. Mas a demora custou caro: morreu logo após chegar em Foz. “Já era tarde. Enterrou, ninguém viu ele lá”, emociona-se Irene.

            Mesmo com as dificuldades e passagens marcantes, o casal lembra que nem só de momentos ruins a história se faz: “carne não faltava. A casa era abundante, com tanto mato” recorda Calixto. Aliás, episódios de caça e pesca são motivo de orgulho para ele, que relembra claramente de inúmeros momentos, como quando fizeram cerco a um leão.

            Ao fazer uma comparação com os dias de hoje, Calixto Prati é taxativo: “Não parece mais o mesmo lugar”.

            O casal mora até hoje em Santa Helena Velha, ele prestes a completar 82 anos e a esposa, com 74 anos.

            Relembrando. Esta entrevista ocorreu em maio do ano de 2000.

                                                                           Santa Helena Paraná, 20 de janeiro de 2018.

                                                                                             Professor João Rosa Correia

 

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